Dengue, Zika e Chikungunya em doadores de sangue assintomáticos


Renato Cerqueira de Souza, Dante Mário Langhi Júnior e José Orlando Bordin

Univeridade Federal de São Paulo (UNIFESP)


Introdução

Dengue, Zika e Chikungunya são arboviroses de notificação compulsória no Brasil e com alta prevalência em todo o território nacional. Apesar do grande número de casos em todo o território nacional, poucos estudos brasileiros foram realizados para avaliação do impacto dessas doenças na doação de sangue e sobre os riscos de transmissão por transfusão de hemocomponentes contaminados pelos vírus.


Dengue

Historicamente o Brasil é o país com maior número de casos de dengue notificados anualmente nas Américas.

Essa doença é causada por vírus do gênero Flaviviridade, composto por 4 sorotipos de vírus de RNA de cadeia simples (DENV1, DENV2, DENV4 e DENV4). Dentro de cada sorotipo do vírus da dengue, múltiplos genótipos compreendem sequências relacionadas filogeneticamente.

Os indivíduos infectados por um sorotipo tornam-se imunes àquele tipo, porém mantém susceptibilidade à nova infecção pelos outros.

As manifestações clínicas podem variar desde doença febril leve à doença grave e fatal. A infecção secundária, ou seja, uma nova infecção, por um sorotipo diferente da primeira, é um fator de risco para manifestação grave da doença.

Zika

O Zika vírus (ZIKAV) foi isolado pela primeira vez em 1947 em um macaco Rhesus na floresta Zika em Uganda. É causada por vírus de RNA de cadeia simples do gênero Flaviviridade, filogeneticamente e antigenicamente relacionado ao vírus Spondweni.

Trata-se de uma infecção relativamente desconhecida quando comparadas às outras arboviroses citadas no presente artigo.

Pode ser assintomática ou apresentar manifestações leves na maioria dos casos. Por esse motivo, é de difícil reconhecimento e pode causar confusão ao diagnóstico com doenças outras doenças virais, como outras arboviroses e doenças gripais.

A sintomatologia, quando ocorre, é caracterizada por febre baixa, artralgia de pequenas articulações das mãos e dos pés, mialgia, cefaleia, astenia, dor abdominal, edema, linfadenopatia, dor retro orbital, conjuntivite e erupções cutâneas maculopapulares. Durante a fase aguda (virêmica) a apresentação mais oligossintomática e os sinais e sintomas inespecíficos podem confundir com manifestações gripais. Tal fato faz com que a infecção aguda pelo Zika Vírus seja subdiagnosticada, o que pode impactar na detecção de doadores de sangue infectados.

Complicações neurológicas, incluindo a síndrome de Guillain-Barré, fazem com que a detecção e reconhecimento dessa doença sejam fundamentais para evitar os riscos de transmissão do vírus e para avaliação e seguimento clínicos adequados.

Chikungunya

O vírus Chikungunya (CHIKV) foi isolado pela primeira vez após uma epidemia que ocorreu entre 1952 e 1953 na Tanzânia.

Assim como o DENV e o ZIKAV, a Chikungunya também é causada por arbovírus, porém do gênero Togaviridae e o mosquito hematófago Aedes aegypti e o Aedes albopictus são importantes vetores dessa doença.

As manifestações clínicas mais comuns da Chikungunya são febre com início rápido associada à astenia importante, mialgia, cefaleia, erupção cutânea e artralgia. A artralgia frequentemente acomete as grandes articulações, é simétrica tanto em membros superiores como inferiores. Também pode envolver pequenas articulações e coluna. São descritos edema periarticular e artrite aguda, principalmente nas articulações interfalangeanas, punhos e tornozelos. Dores ao longo das inserções ligamentares também estão presentes.

Uma das complicações da doença é a persistência ou recidiva da artralgia, principalmente das articulações distais que pode levar a uma poliartrite inflamatória crônica, erosiva, porém raramente deformadora, em até 50% dos pacientes.

Transmissão das arboviroses por hemocomponentes

A transmissão dos vírus da Dengue, Zika e Chikungunya por hemocomponentes contaminados é foco de alguns estudos em diversos países.

Sabino et al, em um grande estudo realizado no Brasil, nas cidades de Recife e Rio de Janeiro, durante uma epidemia de dengue em 2012, analisou 39.314 amostras de doadores de sangue. Demonstrou que uma quantidade significativa de doadores de sangue apresentou RNA positivo para o vírus da dengue. Esse foi o maior trabalho sobre transmissão de arboviroses realizado em nosso país até o momento. A análise, entretanto, foi restrita à detecção do DENV, não tendo sido objeto de estudo a detecção de outros vírus.

Muitas vezes a transmissão relacionada à transfusão não é evidenciada por falta de programas de vigilância, inibição ou abrandamento da infecção por anticorpos preexistentes de infecções por outros subtipos de DENV, redução das taxas de infecção sintomática seguidas por transfusão em relação à inoculação por mosquitos ou imunossupressão pela doença de base.

O potencial de transmissão do Zika vírus por transfusão de sangue também já foi demonstrado. Na Polinésia Francesa, Musso et al demonstrou que 2,8% de doadores assintomáticos testados apresentaram amostras positivas para o RNA do vírus através de NAT. Na época, na Polinésia Francesa, 30.000 pessoas, 11,5% da população local, reportaram sintomas da infecção pelo vírus.

Outros casos brasileiros foram relatados. Tais relatos, associados às alterações induzidas nos fetos infectado e a detecção de ZIKV em doadores assintomáticos, levou os FDA a emitir recomendações para minimizar o risco de transmissão do vírus por hemocomponentes.

Em relação à infecção pelo vírus da Chikungunya, os trabalhos sobre detecção em amostras de doadores assintomáticos e sobre transmissibilidade por hemocomponentes são escassos. Existem estudos de estimativa de risco médio de infecção entre os doadores de sangue, baseado em análise estatística.

Conclusão

Dengue, Zika e Chikungunya são doenças altamente prevalentes no Brasil, principalmente nas regiões com maiores volumes de chuva, embora ainda sejam subdiagnosticadas e subnotificadas. Por esse motivo, deve-se atentar ao risco de coleta e transfusão de sangue de doadores assintomáticos.

Sâo necessários mais trabalhos brasileiros para determinação da prevalência de doadores de sangue infectados por essas arboviroses. Tais estudos são fundamentais devido ao impacto que pode ocorrer com a transmissão por hemocomponentes devido à perpetuação da transmissão das infecções e repercussão da doença nos receptores.

Somente o conhecimento epidemiológico consequente desses estudos poderá ser colocada em pauta a discussão sobre a necessidade de implementação de métodos de detecção de rotina nos doadores de sangue, visando a redução de riscos para o receptor.

Texto retirado da revista ROCHE NEWS

Errata na página 20

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